Pais, mães, filhos, filhas
Luis Fernando Verissimo
Um dia o seu Júlio surpreendeu todo mundo com a informação de que estava, finalmente, conseguindo falar com seu pai. A surpresa foi porque o seu Júlio tem uns 65 anos e ninguém imaginava que ele ainda tivesse pai. Alguns chegaram a pensar que o contato se dera numa sessão espirita. Mas não, o pai do seu Júlio estava vivo. Casara muito cedo, tinha vinte e poucos anos quando o seu Júlio nascera. Por isso mesmo, pai e filho nunca haviam se entendido muito bem. Quando o seu Júlio chegara à adolescência o pai ainda era um jovem adulto. Já se separara da mãe do seu Júlio. Depois não era raro o seu Júlio e o pai se cruzarem, apesar de frequentarem círculos diferentes, para o constrangimento de ambos. Tentavam conversar, mas não tinham nenhum interesse em comum. Não tinham assunto.
- Agora temos – contou o seu Júlio. – Estou finalmente podendo falar com o meu pai.
- Sobre o que vocês conversam? – perguntou alguém.
- Remédios, principalmente – respondeu o seu Júlio, com visível satisfação. – Comparamos nossos tratamentos. “Qual é o seu beta-bloqueador?” “Está tomando o que para o colesterol?” “Experimenta este”. E trocamos hemogramas. “A sua taxa de glicose está melhor do que a minha!” Essas coisas.
E o seu Júlio contou que era comum os dois irem à farmácia juntos, de braços dados.
BURACO
Já a Naná conta que foi um erro ir morar com a mãe depois de se separar do Livinho.
- Ela sempre adorou o Livinho. E não passa dia que ela não me azucrine, pedindo para reconsiderar a separação. Quando eu digo “Deus me livre” ela fecha a cara, como se eu estivesse insultando o São Judas Tadeu, que é o santo da devoção dela. Não adianta eu contar tudo que o Livinho me aprontou. Ela diz que eu estou sendo injusta com ele, que ele é que precisava ter paciência pra me aturar. Minha própria mãe! No outro dia, olha só. Perguntou se podia receber o Livinho em casa. É que todas as sextas o Livinho ia jogar cartas com ela e com a dona Márcia e o seu Taliba, vizinhos de rua. Eu disse “De jeito nenhum!”. E ela: “A casa é minha”. Eu disse “Só por cima do meu cadáver”. Vi nos olhos dela que ela chegou a pensar no que seria melhor, ter uma filha em casa ou um parceiro pro buraco, mas ela só fechou a cara e depois passou dias sem falar comigo. E começou a desaparecer nas sextas-feiras. Na volta sempre diz que estava na igreja, rezando para São Judas Tadeu me iluminar e me fazer aceitar o Livinho de volta. Mas eu desconfio que ela vai se encontrar com o Livinho, que o jogo de cartas continua em outro lugar. Já pensei em segui-la, para ver onde ela vai. Dei para revistar a bolsa dela, os bolsos, para tentar descobrir onde ela esteve. Entende? Estou fazendo com ela exatamente o que fazia com o Livinho. Com minha própria mãe!
AQUELE NEREU
Aloísio contou que depois da morte do seu pai, o Nereu, foi arrumar as coisas dele no seu apartamento de viúvo e descobriu um troféu, um par de bailarinos feito de bronze num pedestal com os dizeres “Nereu e Neuzita – 1º Lugar”. Ficou intrigado. Neuzita não era o nome da sua mãe. Nunca ouvira o pai falar numa Neuzita. Pensando bem, nunca ouvira o pai falar muito do seu passado. Era um homem circunspecto, um pouco triste, que trabalhava anos como gerente de uma firma e depois de aposentado se dedicara à sua pequena coleção de selos, seu único prazer – que o Aloisio soubesse – na vida. E no entanto um dia o Nereu ganhara um primeiro prêmio dançando com a Neuzita. Onde? Quando? Como? E por que nunca dissera nada a respeito para o filho? Aloisio decidiu investigar e, depois de muito procurar, encontrou alguém da família que poderia se lembrar do seu pai quando moço. Um primo. Mas o primo não ajudou. Sua memória estava ruim. Não chegara a conviver com o pai do Aloísio, mas não conseguia imaginar o Nereu bailarino. Neuzita? Também nunca ouvira falar. Mas quando a Aloísio ia se despedindo, o primo lembrou:
- Tinha um Nereu na época. Grande dançador de tango. O rei do tango. O Nereu deles seria aquele Nereu? Não. Claro que não. O Nereu artista? Impossível. E, mesmo, ou o primo muito se enganava, ou aquele Nereu morrera num naufrágio, ou num acidente de carro. Ou só a sua parceira morrera? Enfim, alguma coisa assim.
Aloísio conta que ficou com o troféu em casa e de vez em quando olha para o casal de bronze e pensa: se o bailarino era aquele Nereu ou apenas o seu pai, não faz diferença. Ele não conheceu nenhum dos dois.
CONSELHO
E a Eliane diz que o conselho que recebeu da mãe, quando se casou pela primeira vez, foi “Não seja inteligente demais, minha filha”. Quando a Eliane perguntou como fazer para não ser inteligente, a mãe disse “Disfarce”. E contou que devia o sucesso do seu casamento à frase “Eu não tenho cabeça para essas coisas complicadas, mas...“ que usava como preâmbulo sempre que precisava contrariar uma decisão errado do marido. Segundo a mãe de Eliane, num casamento feliz, preâmbulo é tudo.
Domingo, 24 de agosto de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.